Por isso, a nossa luta contra a imoralidade

Hoje, a vida pública não reclama da minha geração de políticos uma atuação teatralmente espalhafatosa, ruidosa, esportiva e mais interessada em aparecer do que fazer pelo povo. Exige que sejamos capazes de sacrifícios e renúncias para cumprir com serenidade, modéstia e simplicidade, mas sem medo e com precisão, os deveres na luta contra a corrupção.

A corrupção não é apenas o sobrepreço, o superfaturamento e a propina. É também a inversão de prioridades, obtida sorrateiramente pelos poderosos, numa campanha de chantagem e ameaças sobre os que têm poder de decisão, muitas vezes veladas, com o objetivo de satisfazer sua ambição de dinheiro.

Por isso, a nossa luta contra a imoralidade do contrato da Linha Amarela, as verbas absurdas de subsídio ao carnaval, a corrupção da Transcarioca, Transoeste, TransBrasil, a bilionária transferência de dinheiro para o VLT e os favores concedidos na distribuição de verbas de publicidade.

Esta talvez seja a derradeira experiência do ideal democrático em nossa terra. Se ela fracassar, um invencível sentimento de desânimo e de descrença vai envenenar o coração do homem do povo, fomentando uma revolta de consequências imprevisíveis, colocando em risco mortal a credibilidade de todas as autoridades, a dignidade dos nossos lares e a pureza das nossas vidas cristãs.

Aqueles servidores públicos — em especial os membros da magistratura, cujas virtudes de honradez, cultura e devotamento foram sempre razão de orgulho do povo carioca — se por displicência, indiferentismo ou incompreensão deixarem escapar essa oportunidade de assentarmos nossas instituições nos princípios da dignidade da pessoa humana, terão cometido crime de lesa-pátria. E sobre todos nós cairá a condenação de um povo vendido nas suas esperanças, enganado na sua confiança e traído nos seus ideais.

Nesta cidade, neste estado, estraçalhados pela corrupção, precisamos estar unidos e convictos da magnitude deste momento histórico e empreendermos uma jornada cívica que traga de volta, custe o que custar, a lisura na vida pública.

Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro

Artigo publicado originalmente no jornal O Globo em 13/07/2019

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